“Se queres fazer o que eu fiz, por que não fazes como eu fiz?”

Tenho muita dificuldade em acompanhar conversas em espanhol. Perco-me, não consigo intervir... Pior, num restaurante de não fumadores, fico realmente impaciente e, normalmente, vou fumar um cigarro enquanto não chega o jantar...

Só que ontem, à mesa com Jesús Carrascosa e alguns dos seus amigos portugueses e espanhóis, não aconteceu assim. O olhar do Carras dominou a conversa. Eu nem sempre percebi tudo o que diziam mas isso não interessou... Vibrava em cada palavra, em cada gesto, em cada segundo a frase de Luigi Giussani para definir o homem verdadeiramente religioso: "viver intensamente o real". O impacto que esta frase teve nele foi das primeiras coisas que contou da sua vida com Luigi Giussani, a seguir ao jantar, a uma sala desejosa de ver e ouvir aquele amigo de longa data, para muitos, e aquele "histórico" do movimento de Comunhão e Libertação, para outros.

Aura Miguel, presidente do Meeting Lisboa, apresenta o "querido amigo" Carras sem rodeios: era um anarca, queria salvar o mundo e cruzou-se nos anos 70 com Luigi Giussani. Que história é esta, a história da vida de um homem inquieto, que empenhou sempre as suas forças por um ideal, e encontrou uma experiência radical que lhe mudou a vida? É ele mesmo a responder: "nós devemos a vida a Cristo porque a vida é viver contentes, descobrir o significado que justifica a tua alegria, o teu contentamento". Na juventude, a militância anárquica acontece depois de ter perdido a fé. Ou melhor, diz o Carras que a fé não se perde, deita-se fora, tal como um relógio que já não funciona, só o guardas se é de oiro ou se foi a tua mãe que to deu, por afecto. Mas a fé, tal como um relógio, se não funciona para responder às exigências da vida, acabamos por deitá-la fora. O encontro com Giussani reaviva um ponto fundamental: Nenhum dos autores "revolucionários" fez a pergunta essencial; filhos de Rousseau, todos quiseram mudar a sociedade mas ninguém respondeu à pergunta: quem muda o homem? A esta pergunta, começou a responder a amizade com o sacerdote italiano, apresentado por alguns amigos conhecidos numa feira de editores em Frankfurt. O que o atraiu em Giussani? Responde sem hesitar: o seu amor à razão e a sua capacidade de educar dentro de um respeito absoluto pela liberdade... Era um homem que deixava crescer! O tema da liberdade é como a nota dominante de todos os episódios e de todos os juízos testemunhados pelo Carras porque o que o convenceu em Giussani foi olhar para os que o seguiam, eram homens livres, grandes...!

Numa conversa desanimada sobre o facto de que o movimento não tinha adesão em Espanha, é o próprio Carras a sentir-se livre e grande, porque Giussani se limita a desafiar a sua liberdade. "Se queres fazer o que eu fiz, por que não fazes como eu fiz?". Começou então a aventura de CL em Espanha: com o Carras a dar aulas numa escola da periferia de Madrid... Seguir este homem, ou melhor, seguir o que este homem seguia mudou a vida de Jesús Carrascosa e da sua mulher Ione – tantas vezes citada... - ao ponto de, nos anos 90, aceitarem o desafio de deixar a sua vida em Madrid e mudar-se para Itália para se dedicar ao Centro Internacional do movimento. Porquê? "Porque quando descobres que Cristo é tudo para ti e não te defrauda, os sacrifícios são razoáveis e fáceis".

Termina com um comentário inesperado. Uma frase que Giussani disse a propósito do seu casamento. "Quando dois que se amam, se juntos não amam Aquele que não passará, o seu amor passará". E reforça que o segredo do seu amor e de Ione radica nesta questão. "É o reconhecimento de que nenhuma mulher pode preencher o coração de nenhum homem, porque este está feito para o infinito. Por isso, ou juntos encontram Aquele que preenche o coração ou a vida se torna uma pretensão de que o outro me encha o coração".

Parece inesperado mas é o juízo comovente de uma vida (e de um casamento!) totalmente entregue ao encontro com Aquele que preenche o coração. Entregue dentro do movimento, da comunidade que "se é comunhão, é a carne de Cristo". Tão real, tão concreta, tão palpável como a Grande Presença que o Carras nos testemunhou com a sua febre de vida.

Catarina Almeida